Você que me ensinou a doar
- Malu Rocha

- 19 de jul. de 2020
- 2 min de leitura
Ela foi crescendo despretensiosa, a fotografava sempre que via nela uma graciosa forma de existir. E assim passaram-se alguns anos, nuns registrava mais seu desenvolvimento, noutros menos.
Falo da minha mangueira, menina ainda, tornando-se mocinha, ficando cada vez mais redondinha e feminina.
Adorava os seus tons, começando pelo vinho claro, quando te chegavam folhas novas, indo para o mais escuro, até se tornar verde levemente claro, caminhando para um tom mais escuro. A sua primeira floração, poderia dizer a sua primeira menarca, fiquei deslumbrada. Coberta de florzinhas brancas, que eram mais pontinhos amarelados que brancos, linda!
Fiquei atônita te olhando da minha janela. Todos da rua a me dizer coisas que como marinheira de primeira viagem, ficava esperando o que me diziam acontecer. Como; depois das suas flores aparecerão seus frutos. E fotos eu ia tirando, encantada e orgulhosa da sua vida saudável e exuberante. Mulher se tornou e vieram os teus tão esperados frutos. Nossa! Foi uma festa. Todos da rua falavam da sua lindeza. Nesse estágio, já passavas do telhado e eu podia te ver da janela do meu quarto, nem fui me dando conta do quanto crescias, a partir daí fostes subindo infinitamente.
Foram anos dourados, adorava os seus contrastes, associava todos aos meus, as tuas folhas eram meus cabelos, os passarinhos a te visitarem em cantos e revoadas, era a minha casa sendo povoada pela alegria de receber e partir. Ao te olhar pelas manhãs ao acordar, orava por nós, num coro alegre e festivo dos passarinhos, chovendo ou fazendo sol. E assim pedia a Grande Mãe ser tão forte e nutridora quanto você.
O cheiro da manhã entrava em mim com o gosto dos teus frutos, marcando a sua primeira gravidez . Meu Deus!!! Sair e deixar você, doando displicentemente a sua criação. E contigo fui aprendendo da tua nobreza, você era doação pura, livre, ofertório aberto, para quem quisesse provar-te, alimentar-se de te. Enquanto eu, felizmente aprendendo.
O vizinho de me ver tanto reclamar que ainda não tinha tido o prazer de provar do teu fruto, encontrava ao chão alguns e gentilmente colocava no tapete da minha porta de entrada. Agradecida ficava. Sem falar da tua sombra, copa bonita frondosa, grandiosa na verdade. Vizinho a frente, ainda sem garagem, me pedia gentilmente a tua sombra ao meio-dia.
Comecei a sentir e a me separar de ti, como um filho se separa da mãe. Como poderia eu cortar ou querer dominar a tua generosidade, você sempre foi entrega. Você é Universo em extensão. Eu só tinha tido a sorte de ter recebido você de presente. A quem muito agradecida fiquei.
Possessiva, acordava cedo para pegar antes de qualquer pessoa o que já doavas para quem passasse. Irritava-me muitas vezes acompanhar dia após dia, aqueles frutos que amadureciam lentamente ao seu tempo. E um dia constatar que tinha ido e eu não o saboreava, pois como dizia irritada; o dono levou. Como assim? Fui eu que te gestei!!! Como podes ser tão displicente.




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